PERDER O COMBOIO

Num orçamento limitado pelo Tratado Orçamental e pelos acordos à esquerda, o Governo diz ter feito o possível. No entanto, alguns ambientalistas foram perentórios ao afirmar que o Governo podia ter ido mais longe, especialmente no que toca aos incentivos à eficiência energética.

Atentemos então a alguns números da oitava economia mais competitiva do mundo, o Japão. Neste país do extremo oriente, os postos de carregamento automóvel já ultrapassam os postos de combustível (40.000 contra 34.000) e os primeiros estão a aumentar tal como a produção de carros eléctricos. Produtores automóveis, autoridades locais e companhias de electricidade estão a instalar postos de carregamento. Dos tais 40.000 postos, alguns são garagens de agentes privados que, ou alugam o tempo de carregamento, ou criam uma “economia de partilha” em que um conjunto de indivíduos partilha um posto de carregamento.

Agora os EUA, país com duas vezes e meia o número de habitantes do Japão e terceira economia mais competitiva do mundo, têm igual número de postos de carregamento (40.000). As vendas de carros eléctricos em 2014 foram de apenas 65.000 veículos, mas por 2017 esperam-se vendas por volta dos 107.000, isto resulta num aumento anual de 55%!

Para melhor compreender a mudança de paradigma, vejamos o porquê do Fórum Económico Mundial dizer: “adeus petróleo, olá tecnologia!”

Ora em 2006 as maiores empresas eram: ExxonMobil, General Electric, Microsoft, Citigroup, BP e Royal Dutch Shell (três ligadas ao mercado petrolífero, duas à tecnologia e uma financeira) enquanto que, em 2016 (1 Agosto) as maiores empresas são: Apple, Alphabet, Microsoft, Amazon, ExxonMobil e Facebook (apenas resta uma petrolífera para cinco empresas ligadas à tecnologia).

Então e na Europa? A quinta economia mais competitiva do mundo e a terceira maior produtora mundial de automóveis, a Alemanha, já vai preparando o caminho para independência do ouro negro. O Bundesrat – Conselho Federal Alemão- aprovou uma recomendação que visa a proibição de veículos a gasóleo ou gasolina a partir de 2030.

Ok, e Portugal? Bom, lançada em 2010 pelo Governo de Sócrates a rede Mobi.E conta com 1.350 postos de carregamento. O problema é que o mau estado da rede e falta de atualização ameaçam travar a expansão do carro eléctrico em Portugal, infelizmente a fiscalidade verde de Jorge Moreira da Silva – que impulsionou as vendas de carros eléctricos em Portugal – neste OE não marca presença.

Então e o que se pode fazer? Bem, na Noruega há um acordo interparlamentar para a mobilidade eléctrica o que demonstra logo estabilidade a nível fiscal.

Nos Países Baixos, existe um incentivo de 7.000€ para comprar um veículo de emissões zero. No Reino Unido há um prémio de aquisição de 7.000€ e os carros eléctricos não pagam imposto para entrar na cidade de Londres. Por sua vez, na Dinamarca, que tem dos carros mais caros da União Europeia, os eléctricos estão isentos da taxa de matrícula que é “bastante elevada”, o que permite reduzir substancialmente o preço destes veículos quando comparados com os movidos a combustíveis fósseis. Mas o país mais generoso é a Estónia, onde existe “um incentivo de 16.500 euros para comprar um veículo eléctrico e onde recentemente foram instaladas 165 estações de carregamento rápido”.

Aguardemos então por uma política com objetivos a longo prazo, com vista na sustentabilidade e competitividade do sector da mobilidade em Portugal.

 

(Este artigo consta do jornal O Tributo nº16 de Dezembro de 2016)

 

Fonte: Artigo escrito por Duarte Moreira

Finalista Economia, Universidade Lusíada Lisboa.